sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O céu ganhou uma estrela

Essa é uma história não-romântica. É uma história com textão. Ela é um tanto quanto curta, quando se fala de 11 anos. 
Me lembro de quando vi um beagle pela primeira vez. Ele, no começo devia se perguntar quem era aquela estranha que ficava dobrando sua orelha gigante e falando o quanto ele era lindo, fofo e todos esses adjetivos que a gente baba quando se gosta muito de cachorros.
A primeira vez que dei banho nele, ele não podia fugir de mim porque estava dentro do tanque, mas me admirava sua colaboração em dar a pata sempre certa para a gente lavar e ainda sorrir. Sim! Cachorros sorriem, nunca notou? E ele sorria. Sempre sorriu. Abria a boca, todos os dentes a mostra e língua saltitante. que sorriso!
Talvez seja sorriso uma das coisas que mais vamos sentir falta. 


De repente, estava conectada a ele de uma maneira incrível. Costumo dizer que, junto com o homem da minha vida, veio outro. O Billy! Os dois chegaram sem querer e de repente, não havia mais uma vida sem eles. 
Me lembro que a primeira vez que fiquei sozinha na casa do Bruno (e ainda só tinha duas gavetas do seu armário e a escova de dente no banheiro), foi quando ele foi assistir o jogo do São Paulo. Um clássico! Eu, cagona que sempre fui, peguei meu punhado de balas e ficamos eu e Billy deitados no colchão do quarto, assistindo o jogo e comendo bala de morango. Ele era parceiro!

O Billy participou de mais churrascos do que nossos próprios amigos. Bebeu cerveja, caipirinha e já dançou com geral. Já ouviu muitos desabafos e para ele, já até pediram muito conselho, eu já inclusive. 
Sempre sorriu quando estava feliz, olhou desconfiado quando achava que ia ser passado para trás e ficava chateado por diversos motivos. Mas sempre companheiro. Sempre perto de alguém. Quando ele sabia que ia ter festa, era o momento que ele esperava a semana toda. Adorava gente, adorava pessoas, não gostava de ficar sozinho.

Billy sempre comeu mais pipoca do que a gente, sempre dava carinho e prestava atenção em tudo o que a gente falava. Roubava algumas coisas e escondia pela casa e se a gente achasse, ficava puto. Do tipo bem puto. Do tipo: "Cara! Cavei um buraco, escondi e você me descobriu."
Adorava passear de carro. Fechava o olho, botava a cabeça para fora e curtia como quem pedia para correr só mais um pouquinho. 
Quantos dias incríveis! 
Billy sempre foi mais humano que cachorro. 

Eu disse lá no começo que não era uma história romântica?
No mês de Maio de 2016, dia das mães, pela primeira vez, de tristeza pelo Billy nós choramos. Nos desesperamos. Rezamos!

09 de Junho de 2016 - 1º dia
Tivemos nossa primeira consulta ao oncologista. Em Maio, descobrimos que o Billy tinha um um tumor no baço e era um Hemangiossarcoma, um tipo de câncer agressivo em cães. Ele removeu um tumor de 10 cm e junto com ele, também o baço. O que tínhamos medo veio logo depois da cirurgia, já havia espalhado diversas metástases pelo seu corpo. Tínhamos uma bomba relógio e precisávamos tomar uma decisão.
O oncologista disse tanta coisa que é como se tudo dançasse sobre a gente. Algo me puxou de volta: De 6 meses a dois anos!
Esse era nosso prazo. Esse tempo era o estimado para o Billy. Tínhamos uma decisão a tomar: Fazer a quimioterapia e aumentar as chances de vida de um ano até dois anos ou manteríamos sem a quimioterapia e aceitaríamos os seis meses ou quanto tempo mais ganhássemos de presente do mundo?
E então deu se a largada de vida do Billy.

Naquela semana tínhamos uma escolha a fazer.
Nós enrolamos, mesmo que inconscientemente, mas enrolamos dois dias para falar sobre a quinta-feira. E estávamos no sábado a noite em um dos nossos restaurantes preferidos, falando de coisas aleatórias e rindo de qualquer coisa. O Billy entrou na conversa. Entre uma garfada e outra na empanada que estávamos comendo e entre uma Quilmes e outra, veio o desabafo das horas que foram longas após aquela quinta-feira, veio a decisão de não optar pela quimioterapia e aceitação de curtir os dias e meses que viriam a seguir, fazendo com que o Billy vivesse a vida que ainda tinha com a gente da melhor maneira possível. Precisamos deixar nosso egoísmo de lado e pensar no que ele merecia e não no que nós queríamos. Engolimos o choro e sorrimos.

No mês de Julho, fizemos o nosso primeiro exame de rotina após optar por não fazer a quimioterapia. Os exames auxiliavam para acompanhar o desenvolvimento e crescimento das metástases e também o funcionamento dos órgãos.
O resultado não poderia ser melhor! Billy estava lindão e sem nenhuma alteração ou avanço do câncer. Nosso coração? Ah, ele não cabia dentro do peito de tanta felicidade e alívio. Iríamos para o segundo mês, saudáveis e com muuuita comida gostosa e pipoca para comermos juntos ainda.
Billy sorriu ao ouvir as recomendações do doutor:
'Agora é monitorar e ter qualidade de vida. Não deixar ele passar vontade do que ele gosta. O segredo é dar tudo o que ele quiser comer. Aproveita seu companheiro'.

Em Novembro, o nosso vampirinho passou pela sua 4ª transfusão de sangue. Descobrimos no dia, junto com o Doutor legal que liberou o Billy comer o que ele quisesse para não passar vontades (menos doce), que as metástases haviam desenvolvido em seu fígado. Uma, duas, três, quatro, cinco... incontáveis delas. Algumas maiores e outras menores. E a gente se pergunta, como é possível que aquelas manchinhas que parecem tão inocentes, que vemos no monitor do ultrassom, podem aos poucos sugar uma vida dessa forma?
Depois da angústia de possível rejeição na transfusão, tivemos a notícia de que o Billy havia passado por mais essa. Estava já sentado, felizão, de rabo abanando, língua de fora e apetite de um beagle. É oficial! Tínhamos um vampiro em casa! Nada como um sangue novo para deixar ele novinho em folha.

No dia 24 de Dezembro, entre um preparativo de Natal e outro, Billy não amanheceu o cachorro mais feliz do mundo. Bateu a tensão! É natal! Será?
No dia 25 tivemos a notícia de que a decisão dependia somente da gente.

Você pensa muito!
Pensa que não pode ser egoísta por prolongar a vida de alguém por você. Você pensa. Você sofre. Você aceita.

O nosso Feliz Natal em família, veio no dia 26.
Enquanto esperávamos no consultório, foram pegar o Billy e na volta, teríamos de dizer em voz alta: vamos optar pela eutanásia! E desde Maio, aquele havia sido o momento e a decisão mais difíceis.
Enquanto esperávamos, havia um quadrinho pendurado na parede escrito 'Sorte'. E pensei, apesar do momento, quanta sorte tivemos durante todos os anos e dias em que tivemos o Billy com a gente.
Ele já havia lutado tanto, nos ensinado tanto e nos mostrou que junto com ele, havíamos construído a nossa família.

Quando o Dr. abriu a porta, para nossa surpresa o Billy não estava nos braços dele. Ele entrou sozinho, andando, abanando o rabo e veio com um sorriso de orelha a orelha, como quem diz: 'Que bom ver vocês aqui, vamos para casa?'.
Ninguém soube dizer ou explicar. Não fizemos nova transfusão de sangue. Chegamos nos preparando para uma despedida e saímos dali junto com ele, de volta para casa, para comemorar nosso natal atrasado com o Billy. Ele lutou pela vida, mais uma vez.
De repente a vida nos sorriu de volta e sorte! Quanta sorte a nossa!

Desde o Natal, Billy testou seu paladar e todos os pratos. Descobriu que amava bolo de banana, salame, tapioca e descobriu que um dos seus pratos preferidos era lasanha. 
Ele deitou por alguns cantos da casa e por muitas vezes, sorriu!
Comprovamos cientificamente que lasanha causa efeitos colaterais de felicidade.

Temos tido desde aquele 26 de dezembro, que vivemos com o Billy um dia após o outro. Dias ele acordava sem conseguir se levantar mas encerrava o dia subindo sozinho no sofá ou querendo dominar o mundo.
Ele tem tido nos últimos dias o hábito que gostar de ficar na praça. À toa. Pastando. Tipo cavalo, sabe?
Uma praça com muita grama para comer e um bom sossego. A segunda-feira foi um desses dias. Começamos o dia mal, à tarde comemos uma carne de cupim do domingo e um frango empanado no estilo americano. Billy nos últimos dias, se tornou amigo do frango. E o dia encerrou sob uma garoa na praça e um pouco de um bom sossego.

19 de Janeiro

Parece óbvio quando alguém te manda respirar. "Ô meu Deus. Respira", eu lia em uma mensagem de uma amiga. Estou respirando, não estou? Não, não estava. E de repente, parei para respirar. Respirava fundo, olhava para cima, sorria. Respirava, contava até três e não tinha nada em mente. Tudo sumiu. Tudo parou. 
E do outro lado da linha, Bruno me dizia: Billy virou uma estrelinha. 
E assim, em uma quinta-feira de chuva o Billy partiu. 
Ele lutou, todos os dias, 24 horas de cada dia. Lutou com o pouquinho de força que ainda tinha e com as que davam a ele. Ficou todo tempo perto da gente, explodindo um amor invisível aos olhos. E ele ficaria mais sete vidas. Ele queria tanto viver, recebia tanto amor e cafuné de tanta gente, que queria sempre ficar mais um pouquinho e todos os dias ele se agarrou nas chances que tinha e viveu da maneira mais intensa que podia. E da maneira mais linda.
Ele quem começou a nossa família. Ele quem mostrou um amor que a gente não conhecia. 
Cachorros não poderiam ter o mesmo tempo de vida do que nós humanos. 
Cachorros nascem já amando de uma maneira que nós levamos uma vida inteira para aprender.

Nós e o Billy agradecemos de uma maneira imensurável à todos. Também aos amigos, conhecidos e todos que conheceram e deram, em algum momento, o cafuné que o Billy tanto gostava. À clínica Latidos e Miados, que sempre fez tudo o que podia e o que não podia, sempre com MUITO amor.

No dia 16 de Junho de 2012, nos encontramos.
No dia 19 de Abril de 2014, ele virou tatuagem.
No dia 19 de Janeiro de 2017, uma estrela orelhuda no céu.


"Cães têm uma forma de encontrar as pessoas que deles necessitam, preenchendo um vazio que nem sequer elas sabem que tem."















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