terça-feira, 9 de outubro de 2012

A verdadeira balada do amor inabalável

De repente, a vodca virou vinho. A festa fechou as portas. A solteira se comprometeu. Ela baladeira que não perdia uma festa sequer, perdeu o juízo e se jogou. Perdeu também a paciência com a amiga que fica horas descrevendo a roupa de não sei quantas cifras que ela comprou pra ir àquela super-mega-ultra-power festa do final de semana naquele super-mega-ultra-power lugar que ela já foi zilhões de vezes. A cidadã ouviu o toque de recolher.

Acabou a graça de sair pra paquerar carinhas que não vão dar em nada. Acabaram as noites sem dias seguintes, os dias seguintes que ainda eram a balada da noite anterior. Ela não tem mais paciência pra festas regadas a saias que exibem o útero, por cabelos que exalam formol, por decotes que disputam o maior silicone, por playboys que também disputam o maior silicone, pelos silicones que disputam o carro mais caro e o cara mais barato. A música alta torrou a paciência, corrompeu os neurônios e estourou os tímpanos. Suas roupas curtas são tão curtas que não caberiam em nenhum outro lugar a não ser em festas com pessoas dopadas pela droga do momento e embaladas por música que repetem o tuntz-tuntz a noite inteira.

Ele faz todas as vontades dela, viaja, sua, ri, canta, toca, come, beija. Ela é a cidadã que faz a única vontade dele. Ele compra vinho, ela faz chapinha. Ele compõe, ela desafina. Ele é sol, ela é de lua. Ele quer envelhecer junto, ela quer morrer antes de envelhecer. Ele planeja o futuro, ela não tem a mínima pista de amanhã cedo. Ele paga previdência privada, ela paga depilação a laser. Ele é tudo que ela sempre quis um dia, antes mesmo de ela saber que queria. Ele quer ela, ela quer ele.

A cidadã ex-baladeira-frenética-sem-rumo recolheu suas fichas e foi apostar em outro lugar. Mais seguro. Com menos risco. Mais certezas. E, por incrível que pareça, mais emoção. Ela prefere acordar de manhã e saber pra quem ligar do que tentar lembrar o nome da noite anterior. Prefere estar com alguém que conheça seus defeitos, que tolere suas pirraças, que a ame apesar do que ela é. Prefere saber onde está pisando.

Como se preferir fosse algo que ela tivesse escolhido. Não foi. Aconteceu enquanto ela planejava um final de semana e outro. Aconteceu enquanto ela não tinha planos para o fim de ano e lamentava a maldita época do ano em que os rolos mal enrolados aproveitam pra desenrolar. Aconteceu numa noite de céu estrelado e aviões que ainda voavam baixo lá em cima. Aconteceu sem que ela tivesse o mínimo controle ou pelo menos uma vaga pista do que estava fazendo. Aconteceu e ela ainda não sabe muito bem o que está fazendo. Só que, agora, se ela tiver dúvidas, ela tem pra quem perguntar. E quando ela não tiver certezas, ela ainda vai ter ele.

- Texto por Brena Braz

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